Hesperian Health Guides

Como é que as substâncias tóxicas entram nos nossos corpos

Neste capítulo:

A woman drinking from a cup.
A man next to a can spewing toxic fumes.
A man scratching a rash on his arm.
Ao comer e beber (ingestão) Ao respirar (inalação) e Através da pele (absorção)

Quanto mais tempo alguém ficar exposto a (em contacto directo com) um produto químico tóxico, mais danos isso pode causar. Em Bhopal, 500.000 pessoas ficaram expostas ao mesmo tempo, respirando o gás e absorvendo-o através da pele. Este foi o desastre imediato. Porque as substâncias tóxicas provocadas pelo desastre químico não foram limpas e os produtos químicos se espalharam grandemente através das áreas em volta da fábrica, o veneno entrou no solo e na água do subsolo por baixo da cidade. Agora, muitos anos mais tarde, as pessoas ainda estão a beber água que tem veneno. Esta é a parte do desastre que ainda continua.

Seja uma exposição tóxica de grande escala, como a que aconteceu em Bhopal, ou uma exposição a produtos tóxicos nas tintas, solventes ou outros produtos normais, a primeira coisa a fazer é afastarmo-nos dos produtos químicos ou afastá-los de nós, para não ficarmos expostos por mais tempo. Depois disso, devemos trabalhar para impedir futuras exposições (para mais informação sobre problemas de saúde com produtos químicos tóxicos, ver Capítulo 16).

Uma clínica concebida para proteger o ambiente

As pessoas em Bhopal estão a lutar por uma maior justiça ambiental. Ao mesmo tempo, estão a trabalhar para se curarem do desastre. Os sobreviventes e outros voluntários criaram a Clínica Sambhavna para prestarem cuidados de saúde a toda a comunidade, independentemente da capacidade de pagar ou das diferenças religiosas ou de casta. Sambhavna significa “possibilidade” em sânscrito e nas línguas hindi.

A Clínica Sambhavna é um modelo de saúde ambiental. Foi construída e funciona tão segura e sustentadamente quanto possível. Por exemplo:

  • Só se usa água quente e sabão para limpar a clínica, de modo a garantir que ninguém se magoa com produtos de limpeza tóxicos.
  • Os trabalhadores da clínica criaram uma horta para cultivarem medicamentos à base de plantas. Não se usam quaisquer produtos químicos na horta. As pessoas tratadas na clínica trabalham na horta e colhem as suas próprias ervas para tratamento.
  • Quando são necessários novos edifícios na clínica, só se usam materiais de construção não tóxicos. Os edifícios usam materiais locais e estão desenhados para deixar passar a luz natural e o ar.
  • A água da chuva é recolhida dos telhados durante a época das chuvas e armazenada em tanques no subsolo, fornecendo água para a época seca.
  • Depois de a água ser usada para lavagens, é enviada por tubos até um lago e depois irriga os campos e a horta.
  • A electricidade é produzida por painéis solares, que causam muito pouca poluição.
People working and meditating in the garden outside the clinic.

A Clínica Sambhavna mostra que conseguir saúde para todos não significa tratar apenas os doentes, mas sim impedir o aparecimento da doença em primeiro lugar. O seu exemplo na redução de danos causados por produtos tóxicos pode ser seguido em escolas, negócios, departamentos governamentais e nas nossas casas. Mas, mesmo que mudemos as nossas casas e instituições para as tornarmos mais saudáveis e mais sustentáveis, todos nós, especialmente os mais vulneráveis, ainda estamos em risco, enquanto as indústrias continuarem a produzir e usar substâncias tóxicas (para aprender mais ver Clínica Sambhavna).

Trabalhar para a mudança

Ao organizarem a sua comunidade para lutarem por saúde e bem-estar a longo prazo, os sobreviventes de Bhopal inspiraram pessoas em todo o mundo a agirem pelos seus direitos e pela justiça ambiental. Estes princípios de organização para reduzir os danos provocados por produtos químicos tóxicos provaram ser úteis:

  • Evite os produtos tóxicos na vida diária. Use produtos químicos de limpeza não tóxicos em casa, nas instituições comunitárias ou no local de trabalho. Não use pesticidas ou fertilizantes químicos na horta, coma alimentos cultivados sem produtos químicos e lave as frutas e legumes com cuidado antes de os comer (ver Capítulo 14). Como é provável que estejamos expostos a produtos tóxicos nas nossas comunidades, temos que pressionar os governos para que deixem de autorizar as empresas a exporem as pessoas, sobretudo os mais vulneráveis.
  • Organize-se para prevenir a poluição. Use medidas diferentes para prevenir os desastres tóxicos, incluindo greves de fome, reuniões e marchas, bem como o teatro popular, os meios de comunicação, a internet e outros métodos de comunicação para educar as pessoas. Se uma fábrica está a poluir, procure outras formas de os trabalhadores ganharem a sua vida, porque as pessoas precisam de empregos e de rendimento.
A woman speaking as she holds her child.
Se os nossos governos nos protegessem e protegessem o nosso ambiente da mesma maneira que eu protejo a minha família, todos seríamos muito mais saudáveis.
  • Force as empresas a limparem o que sujam. Embora seja muito difícil consegui-lo, exigir que uma empresa limpe o lixo tóxico é uma parte importante de qualquer luta pelos direitos ambientais. As pessoas concordam, mesmo que as empresas não concordem, que as empresas devem assumir responsabilidade para impedir os danos e reparar aqueles que possam causar. Quando as pessoas forçam as empresas a pagar pelos danos que causam, é mais provável que no futuro estas melhorem a sua segurança.
  • Pressione os governos para terem melhores padrões de segurança. Infelizmente, a maior parte dos governos protege os lucros das empresas antes de proteger as pessoas. Isto promove a injustiça ambiental e leva a desastres quando as empresas veem a segurança como um custo evitável e não como uma responsabilidade. Os governos devem mudar as suas prioridades para protegerem todas as pessoas, sobretudo as mais vulneráveis.
  • Mude a maneira como a indústria actua. A fábrica da Union Carbide em Bhopal fazia pesticidas para controlar as pragas nas culturas. Mas há melhores maneiras de controlar as pragas do que usar estes produtos químicos. Na realidade, há maneiras menos danosas e mais sustentáveis de fazer quase tudo. Por que será que podemos ser envenenados pela indústria, mas não podemos decidir como é que as coisas devem ser feitas?

Risco aceitável? Para quem?

É frequente as indústrias e os governos justificarem o risco de danos ambientais, até mesmo de desastres como o de Bhopal, dizendo que uma certa quantidade de risco é aceitável como “o custo do desenvolvimento”. Isto significa habitualmente que os mais vulneráveis entre nós são sacrificados para que o negócio continue a ter lucro como sempre. Para a maior parte de nós, isso não é aceitável. A procura do lucro não é justificação para causar tanto mal e violar os direitos humanos das pessoas, como o direito à saúde e a um ambiente saudável.

Se a empresa Union Carbide ou o governo indiano tivessem sido orientados pelo princípio da precaução, talvez o desastre tóxico de Bhopal não tivesse acontecido.

Exigir precaução

As medidas de segurança podem reduzir os danos. Mas, mesmo quando são tomadas medidas de segurança, há sempre algum risco nas fábricas industriais. Se os riscos não podem ser evitados, então eles deveriam, pelo menos, ser partilhados em partes iguais de modo a não afectar apenas as pessoas e as comunidades mais pobres.

A longo prazo, para ser tão seguras quanto possível, as indústrias devem ser organizadas de maneira a valorizarem a segurança e a sustentabilidade, mais do que os lucros elevados. Para o conseguir, devemos exigir que as empresas desenvolvam formas mais seguras e mais justas de fazer as coisas, e que os governos as responsabilizem, criando e fazendo cumprir leis que protejam a saúde e o ambiente. Uma maneira de promover a justiça ambiental para todos é exigir que os nossos líderes e os que estão no poder tomem decisões orientadas pelo princípio da precaução.

Illustration of the following: The shape of the factory turned sideways becomes a gun.
Exija precaução!
EHB Ch4 Page 43-2.png
Uma fábrica que deita fumo... ...pode transformar-se numa arma que deita fumo.


Esta página foi actualizada: 23 fev. 2024